A colônia japonesa em Tomé-Açu, no interior do Pará, é um dos exemplos mais surpreendentes de como a imigração pode transformar um território de forma positiva e sustentável. Enquanto grande parte da Amazônia foi historicamente associada ao desmatamento, à exploração predatória e à degradação ambiental, essa comunidade construiu um caminho oposto: um modelo agrícola que regenera a floresta, produz alimentos o ano inteiro e mantém a biodiversidade.
Fundada em 1929 por famílias japonesas que buscavam novas oportunidades no Brasil, Tomé-Açu se tornou um laboratório vivo de agricultura sustentável na Amazônia. Mais do que um projeto econômico, a experiência representa uma mudança profunda na relação entre sociedade, produção de alimentos e natureza.
Ao longo de quase um século, o que era um território isolado se transformou em referência mundial em agrofloresta, sendo estudado por universidades, órgãos ambientais e instituições internacionais como a FAO e centros de pesquisa japoneses e brasileiros.
Como surgiu a colônia japonesa em Tomé-Açu
Os primeiros imigrantes chegaram enfrentando condições extremamente adversas: solo pobre, doenças tropicais, isolamento geográfico, ausência de estradas e nenhuma infraestrutura básica. Muitos adoeceram, outros desistiram e retornaram, e os que permaneceram precisaram desenvolver uma resiliência extraordinária.
No início, tentaram reproduzir os métodos agrícolas do Japão, baseados em clima temperado e solos muito diferentes dos amazônicos. Rapidamente perceberam que isso não funcionaria naquele ambiente quente, úmido e biologicamente complexo.
Foi então que nasceu uma das maiores inovações da região: o Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu (SAFTA) — uma solução criada a partir da observação da própria floresta.
O que é o Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu
O SAFTA é um sistema que combina:
- Árvores nativas
- Cultivos agrícolas (cacau, pimenta-do-reino, cupuaçu, açaí, banana)
- Plantas de diferentes ciclos produtivos
Tudo isso no mesmo espaço, imitando a estrutura natural da floresta.
A lógica é simples e ao mesmo tempo revolucionária: em vez de eliminar a biodiversidade para plantar, o agricultor a utiliza como aliada. As árvores protegem o solo, regulam a umidade, criam sombra, reduzem pragas e ajudam a manter os nutrientes circulando naturalmente.
Em vez de derrubar a floresta para plantar, o sistema planta para reconstruir a floresta.
Tabela 1 — Agricultura convencional x Sistema Agroflorestal
| Critério | Agricultura convencional | Sistema Agroflorestal Tomé-Açu |
|---|---|---|
| Uso do solo | Monocultura | Policultura integrada |
| Impacto ambiental | Alto | Baixo e regenerativo |
| Biodiversidade | Reduzida | Elevada |
| Risco climático | Alto | Baixo |
| Produtividade no longo prazo | Cai com o tempo | Aumenta com o tempo |
Resultados ambientais e econômicos
O modelo mostrou que é possível unir economia e conservação ambiental. Hoje, Tomé-Açu é referência internacional em:
- Regeneração de áreas degradadas
- Fixação de carbono no solo
- Redução do uso de agrotóxicos
- Produção diversificada e resiliente
Além disso, o sistema gera renda contínua ao longo do ano, pois diferentes culturas produzem em épocas distintas. Isso reduz a dependência de um único produto e protege o agricultor contra crises de mercado, pragas ou eventos climáticos extremos.
Tabela 2 — Impactos do modelo de Tomé-Açu
| Indicador | Antes | Depois do sistema |
|---|---|---|
| Fertilidade do solo | Baixa | Alta |
| Erosão | Frequente | Rara |
| Renda dos produtores | Instável | Estável |
| Dependência de insumos | Alta | Baixa |
Preservação cultural japonesa na Amazônia
Além da inovação agrícola, Tomé-Açu preserva idioma, gastronomia, festivais e valores japoneses, criando uma fusão cultural única entre Japão e Amazônia. Festivais tradicionais, culinária típica e até expressões do idioma japonês seguem vivos no cotidiano da cidade.
Essa preservação cultural fortalece o senso de comunidade, promove o turismo cultural e mantém vivas as raízes históricas que deram origem ao projeto.
Tabela 3 — Cultura japonesa no Sudeste x em Tomé-Açu
| Aspecto | Sudeste | Tomé-Açu |
|---|---|---|
| Contexto | Urbano | Rural e florestal |
| Integração com o ambiente | Baixa | Alta |
| Uso do idioma | Limitado | Ainda presente |
| Influência no território | Cultural | Cultural + ambiental |
Um modelo para o futuro da Amazônia
A colônia japonesa em Tomé-Açu prova que a floresta pode ser fonte de riqueza sem ser destruída. Seu modelo inspira governos, pesquisadores, agricultores e formuladores de políticas públicas que buscam alternativas reais ao desmatamento.
Mais do que uma experiência agrícola, Tomé-Açu representa uma visão de futuro: uma Amazônia produtiva, viva, biodiversa e socialmente justa — onde desenvolvimento e preservação não são opostos, mas partes do mesmo caminho.
