IA NA ACADEMIA: ATÉ QUE PONTO É SEGURO DEIXAR A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL MONTAR SEUS TREINOS?

A inteligência artificial deixou de ser uma curiosidade tecnológica para se tornar uma ferramenta presente no cotidiano de milhões de pessoas. Hoje, ela escreve textos, organiza agendas, responde dúvidas complexas e até sugere cardápios personalizados. Naturalmente, esse avanço chegou também ao universo da atividade física, levantando uma questão cada vez mais comum entre praticantes de academia: é seguro usar uma IA para montar treinos?

À primeira vista, a proposta parece sedutora. Bastam alguns comandos digitados em um chatbot para receber um plano de exercícios supostamente personalizado, alinhado a objetivos como emagrecimento, hipertrofia ou condicionamento físico. No entanto, quando o assunto envolve saúde, corpo humano e risco de lesões, especialistas alertam que a facilidade pode esconder armadilhas importantes.

Este artigo analisa, em profundidade, os riscos, limites e possibilidades do uso da IA na prescrição de treinos, reunindo opiniões de educadores físicos, especialistas em dados e reflexões sobre privacidade, segurança e responsabilidade.

Por que tanta gente recorre à IA para montar treinos?

O crescimento do uso de inteligência artificial para atividades físicas não acontece por acaso. Alguns fatores ajudam a explicar essa tendência:

  • Acesso gratuito ou de baixo custo a ferramentas avançadas
  • Falta de tempo para avaliações presenciais
  • Custo elevado de personal trainers
  • Sensação de personalização instantânea
  • Linguagem simples e acessível dos chatbots

Muitos usuários acreditam que, ao fornecer dados como peso, altura, idade, objetivo e frequência semanal, a IA será capaz de gerar um treino “sob medida”. Em teoria, isso parece lógico. Afinal, algoritmos analisam grandes volumes de dados com rapidez.

O problema começa quando se confunde processamento de informação com avaliação fisiológica real.

O que a IA realmente faz ao criar um treino?

Ao contrário de um profissional de educação física, a IA não avalia o corpo, não observa movimentos e não testa limitações físicas. O que ela faz é:

  • Cruzar dados estatísticos
  • Identificar padrões em bancos de informação
  • Reproduzir modelos de treino populares
  • Adaptar cargas e séries com base em médias

Ou seja, a IA não entende o corpo, ela entende texto, padrões e probabilidades.

Segundo Cacá Ferreira, educador físico e gerente técnico da rede Cia Athletica:

“O maior risco é a falsa sensação de personalização. O treino parece individual, mas não considera a resposta real do corpo, nem como a pessoa executa os movimentos.”

O problema das progressões lineares

Um dos principais alertas feitos por especialistas está relacionado ao que chamam de progressão linear automática.

Na prática, muitos treinos gerados por IA seguem uma lógica simples:

  • Semana 1: carga X
  • Semana 2: carga X + aumento
  • Semana 3: carga maior ainda

O problema é que o corpo humano não evolui de forma linear.

Fatores como:

  • Qualidade do sono
  • Nível de estresse
  • Alimentação
  • Histórico de lesões
  • Ciclo hormonal
  • Rotina de trabalho

influenciam diretamente o desempenho físico.

Segundo Leandro Twin, profissional de Educação Física e embaixador da Bluefit:

“Quando a IA ignora essas variações, o aluno tenta cumprir um treino que não respeita sua condição real. Isso gera compensações, execução errada e aumenta muito o risco de lesão.”

Lesões: o risco invisível

Outro ponto crítico é a execução dos exercícios. Mesmo um treino bem estruturado pode ser perigoso se executado de forma incorreta.

A IA:

  • Não observa postura
  • Não corrige movimento
  • Não percebe dores articulares
  • Não adapta exercícios em tempo real

Isso faz com que erros se repitam sem correção, sobrecarregando articulações, tendões e músculos.

Lesões comuns associadas a treinos mal orientados incluem:

  • Tendinites
  • Lombalgias
  • Lesões no ombro
  • Problemas no joelho
  • Hérnias discais

Em muitos casos, o aluno só percebe o problema quando a lesão já está instalada.

Prompt detalhado resolve? Não totalmente

Muitos usuários acreditam que um prompt extremamente detalhado resolveria o problema. Informam:

  • Histórico médico
  • Lesões passadas
  • Limitações físicas
  • Objetivos específicos

Ainda assim, especialistas são categóricos: isso não substitui avaliação presencial.

Avaliações importantes que a IA não faz:

  • Testes de mobilidade
  • Avaliação de encurtamentos musculares
  • Análise de assimetrias
  • Observação de padrão motor
  • Testes de força real

O treino não é apenas planejamento. Ele exige adaptação constante, algo que, por enquanto, só o acompanhamento humano consegue oferecer com segurança.

O que dizem as empresas de IA

As próprias empresas responsáveis pelas ferramentas reforçam que a IA não deve ser usada como substituta de profissionais de saúde.

“Incentivamos o uso responsável da IA como recurso complementar, e não como solução única para decisões relacionadas ao treinamento físico ou à saúde.”

A empresa também destaca que seus modelos contam com mecanismos de mitigação de risco, mas reconhece que eles não substituem avaliação profissional.

Ferramentas como ChatGPT Health e Claude for Healthcare ampliam o contexto de análise, mas ainda operam dentro de limites éticos e técnicos.

Privacidade: você sabe o que está compartilhando?

Outro ponto sensível é o uso de dados pessoais.

Ao pedir um treino personalizado, muitos usuários compartilham:

  • Peso
  • Altura
  • Idade
  • Condições médicas
  • Histórico de saúde
  • Rotina diária

Segundo o advogado Pedro Sanches, especialista em proteção de dados:

“O usuário precisa verificar se a plataforma explica claramente como os dados são tratados, armazenados e utilizados.”

Esse cuidado vale tanto para chatbots de IA quanto para apps fitness, já que informações de saúde são consideradas dados sensíveis pela legislação.

IA como aliada, não como substituta

Apesar de todos os riscos, os especialistas não demonizam a tecnologia. Pelo contrário: veem grande potencial quando a IA é usada como ferramenta de apoio ao profissional.

A IA pode ajudar em:

  • Organização de treinos
  • Registro de evolução
  • Análise de histórico
  • Sugestão de variações
  • Previsão de riscos com base em dados

Segundo Cacá Ferreira:

“A IA pode ajudar a prever cenários e evitar caminhos que levem a problemas de saúde. Mas quem transforma isso em prática segura ainda precisa ser o profissional.”

Leandro Twin complementa:

“O profissional que não usar IA pode ficar para trás. O erro está em achar que ela substitui o olhar humano.”

Quando usar IA para treino pode ser aceitável?

Existem cenários em que o uso da IA oferece menor risco, como:

  • Treinos leves de alongamento
  • Exercícios de mobilidade
  • Atividades recreativas
  • Organização de rotina
  • Sugestões gerais de atividade física

Ainda assim, não é indicado usar IA como única fonte para:

  • Treinos de força pesada
  • Reabilitação
  • Casos com lesões prévias
  • Pessoas sedentárias iniciantes

Checklist de uso consciente da IA na academia

Antes de usar uma IA para treinos, considere:

  • ❌ Não substituir avaliação profissional
  • ✅ Usar como complemento
  • ❌ Não ignorar dores
  • ✅ Ajustar carga conforme sensação real
  • ❌ Não seguir progressões automáticas cegamente
  • ✅ Priorizar segurança

O futuro: humanos + IA

A tendência não é eliminar o profissional, mas integrar tecnologia e conhecimento humano.

A IA pode:

  • Otimizar processos
  • Organizar informações
  • Ajudar na tomada de decisão

Mas quem garante segurança, corrige movimentos e protege a saúde ainda é o profissional de educação física.

É seguro usar IA para montar treinos?

Depende de como e para quê.

Usar IA como apoio informativo pode ser útil. Usá-la como substituta de um profissional, não.

Quando o assunto é saúde, o barato pode sair caro. A tecnologia avança rápido, mas o corpo humano continua exigindo cuidado, observação e adaptação constante.

No fim, a melhor equação ainda é:
tecnologia + acompanhamento humano + bom senso.

Essa combinação, sim, pode levar a resultados mais seguros, eficientes e duradouros.

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